. : Notícias
busca por notícias/mensagens
 
 
 
 

Período de Transição


Entrevista de Divaldo Pereira Franco ao Programa Televisivo O Espiritismo Responde, da União Regional Espírita – 7ª Região, Maringá, em 21.03.2007.

Espiritismo Responde – Os Espíritos Nobres têm falado sobre momentos de transição que a Terra está passando. O que caracteriza esses momentos?

Divaldo Pereira Franco – São as convulsões sociais que se derivam dos distúrbios morais. Nesses distúrbios morais-sociais nós geramos uma psicosfera doentia. Fala-se de que a ecologia está alterada, a nossa atmosfera está carregada de gases destrutivos, de que estamos vivendo momentos em que a água vai entrar em escassez, porque apenas 2% da água do mundo é potável... Fala-se tudo isso, e mais das tsunames, das erupções vulcânicas... Tudo isso faz parte de um grande conjunto que constitui a transição.

Realmente, a nossa mente transformada em instrumento de prazer, de violência gera também convulsões geológicas. A mudança e a sustentação das placas tectônicas que produzem esses tremendos maremotos, essas tsunames podem também ser provocadas pelos distúrbios mentais dos habitantes do planeta.

ATerra tem que se transformar do ponto de vista geológico para albergar Espíritos mais elevados. Há uma evolução correspondente do planeta, ao mesmo tempo que ocorre a sociológica, moral, produzindo outras variantes. Se reflexionarmos em torno da sociedade como um todo, vemo-la terrivelmente fragmentada.

Observemos, por exemplo, as religiões. As doutrinas religiosas, ao invés de marcharem para a união, avançam para a competição, odeiam-se reciprocamente, em nome de Deus que é todo amor. É um paradoxo!

A política é cada dia mais arbitrária. A sede de dominação e de totalitarismo continua no Mundo de hoje, como no tempo mais recuado da nossa vida na Antigüidade Oriental. As propostas de natureza sociológica não saem do papel, quase nunca são aplicadas.

A violência urbana toma conta do Mundo. Por quê? Porque o indivíduo é violento. Então, a cura, a terapêutica, será, infelizmente essa grande mudança que se está dando mediante a dor, impondo-nos a transformação espiritual através da nossa modificação interior. Muitos dizem: “Nós necessitamos de leis justas”. A maioria das leis é elaborada dentro dos códigos da justiça, mas essas leis feitas e aplicadas a pessoas violentas e viciosas, favorecem a impunidade, a eleição do poderoso em detrimento daquele que é fraco. É necessário trabalhar-se o indivíduo, como disse Allan Kardec, sendo hoje melhor do que ontem, amanhã melhor do que hoje e lutando sempre contra as suas más inclinações.

ER – Apesar dos momentos difíceis que a Humanidade está vivenciando, vemos um número muito grande de pessoas indiferentes ao que está acontecendo, sem religiosidade, sem solidariedade, simplesmente deixando a vida passar.
Quais são as conseqüências dessa passividade? O que será capaz de despertá-las?

Divaldo – A dor é o clarim que nos desperta a todos. No estudo da psicologia, nos vários níveis da evolução da consciência, a primeira fase é a chamada de consciência de sono. A pessoa é apática emocionalmente. Pode possuir muita inteligência, muito conhecimento, mas é indiferente ao que acontece com os outros. É uma consciência adormecida, egóica, somente se interessando pelo que é seu, enquanto que os outros não têm nenhum sentido no conjunto social.

Esta é uma fase da evolução, porque logo depois passa-se à consciência desperta. Mas, isso ocorre através do sofrimento. Esse indivíduo sempre pensa que a morte, a miséria, o câncer apenas atacam o vizinho. Mas, como o vizinho pensa a mesma coisa, vai chegar a vez dele ser atacado, aí então ele desperta e exclama: “Por que Deus fez isso comigo? Por que eu?”

É comum sempre se perguntar: “Mas, por que comigo?” A pergunta deveria ser: “Por que não comigo?” Porque todos somos iguais. Todos experimentamos as mesmas vicissitudes. Por que uns sim e outros não? Então essas pessoas apáticas, indiferentes, serão sacudidas como estamos sendo todos, pelos sofrimentos: a depressão, o distúrbio do pânico, as inquietações, o vazio existencial, os cânceres e tantas outras enfermidades.

Mantendo-se essa indiferença, a mesma revela um transtorno patológico. O indivíduo já não tem sensibilidade, o que é uma das primeiras características da depressão, graças à falta de serotonina e de noradrenalina. A pessoa que está indiferente não tem afeto pelos seres antes mais amados... Essa depressão hoje é de natureza pandêmica.

ER – Numa atitude muito feliz, você lançou a campanha “Você e a Paz”.
Como está essa campanha? Já é possível identificar os resultados?

Divaldo – Sim, e quase que de imediato No ano atrasado, tivemos uma emoção incomum, porque conseguimos arrastar à praça pública mais de 20.000 pessoas. Às vésperas do Natal, às 18h00 de um dia de semana, com todo o comércio trabalhando. Isto tem um sentido muito elevado. Quando terminamos o ato público, o Comandante da Polícia Militar da Bahia chamou-me para uma campanha que ele estava iniciando. Qual era a campanha? Ele colocou um pequeno adesivo em todos os veículos da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros com a seguinte inscrição – “Este é o Ano da Paz.”

São mais de 30.000 militares que em todos os veículos conduzem o adesivo da Campanha, do Movimento Você e a Paz. Achei isso incomparável, porque, normalmente, a polícia é repressiva. Com essa atitude do sr. Comandante, estamos avançando para criar uma polícia educativa, arrancando as raízes do mal, e não somente combatendo-lhe as conseqüências.

Tivemos ocasião de dialogar com um grande traficante de drogas, de um dos bairros mais perigosos de Salvador, que abandonou o hediondo trabalho depois de ouvir-me. Ele foi ouvir-me em uma escola, no seu bairro, posteriormente na praça pública e comoveu-se.

Quando eu desci do palanque, ele me perguntou chorando: “E agora, o que eu faço da minha vida?”

Respondi-lhe: “Vai trabalhar como qualquer cidadão.”

“E quanto vou ganhar?”

Eu respondi-lhe: “Um salário mínimo, porque você não sabe fazer quase nada.”

Ele riu, e respondeu-me : “Mas, isso eu ganho em alguns minutos.”

Redargüi-lhe: “Com a morte da alma de muita gente, para muitos anos, não é verdade? Somente que você não tem esse direito. Deus não o criou para ser um criminoso de almas, porque o assassino comum mata o corpo, mas o vendedor de drogas mata a alma, sendo um terrível covarde que fica escondido, destruindo vidas, não sendo usuário, o que é ainda mais perverso.”

Consegui-lhe o primeiro trabalho. Atualmente, está numa atividade remunerada, é um cidadão e está tentando arrancar do ofício nefasto outros traficantes, seus conhecidos.

Porém, o mais fascinante é que nós lançamos o Movimento “Você e a Paz” em Paris, no ano passado, em maio. Lançamo-lo, também, em Portugal, em Coimbra, igualmente no ano passado, e iremos apresentá-lo também em outros países.

Aqui, no Brasil, já temos uma grande quantidade de cidades que o estão realizando. Lamentavelmente, o tempo de que disponho não me permite estar em todos, mas já o temos no Paraná, em Santa Catarina, e vamos seguindo muito bem.

ER – Jesus orientou para se viver no mundo, sem ser do mundo. Podemos identificar nessa orientação um convite para se viver em paz, apesar da violência que cerca o homem?

Divaldo – Isto é o que Gandhi nos ensinava, seguindo o exemplo de Jesus. Ele teve ocasião de dizer que lamentava muito os cristãos. Porque os cristãos têm uma Bíblia de 400 páginas, que lêem, meditam e não lhes adianta muito.

Ele leu apenas o Sermão da Montanha, as doze linhas de São Mateus e mudou a sua vida. Concluiu afirmando: “Eu amo a Cristo, mas tenho muito medo dos cristãos, porque não respeitam o Cristo”.

Como conseqüência, ele elegeu a não violência, porque a não violência proporciona paz. A pessoa não violenta é pacífica, é pacifista e é pacificadora, porque no seu íntimo tem segurança.

Certa feita, um dos Secretários de Segurança Pública do Estado da Bahia levou-me a um presídio da cidade para que eu realizasse uma palestra. Colocou todos os criminosos em uma área amuralhada e assistidos por policiais armados de metralhadora. Então, eu lhe disse: “Secretário, como eu vou falar de paz e de amor com essas metralhadoras?”

Ele retrucou: “Divaldo, isto é para nossa segurança, porque é um risco aqui estarmos. Temos que cuidar da nossa vida, pois que, do contrário, poderemos ficar aqui seqüestrados.”

Respondi-lhe sorrindo: “Então o sr. sai e eu fico. Se eu irei falar sobre a paz, tenho que acreditar nela. Se eu prego o amor, tenho que confiar nele. É claro que eu não quero ficar aqui no Natal, seqüestrado. Mas tenho que provar aos que irão ouvir-me, que não tenho medo deles ou daquilo que os torna infelizes, graças à tranqüilidade que devo possuir.”

Ele obtemperou: “Nós não podemos tirar a polícia”.

Ao que eu sugeri: “Mas, pelo menos, pode manter uma vigilância mais discreta”.

Ele me atendeu e eu comecei dizendo para os 200 encarcerados: “Vocês não estão aqui obrigados. Fiquem se quiserem. Mas, antes de resolver se ficam ou se saem, dêem-me dois minutos, exatamente dois minutos.”

E contei-lhes uma história de humor. Eles riram muito.

A partir daí, expliquei-lhes: “Agora, irei falar-lhes sobre algo mais sério, que merece reflexão.”

Fiquei muito tempo conversando com eles.

Alguns começaram a ler as obras espíritas, e criamos um núcleo dentro da Casa de Detenção.

É necessário que a nossa paz resista à perturbação de fora, porque senão é uma paz ilusória.

Jesus disse: “Eu vos dou a minha paz. Não como o mundo a dá, mas como somente eu a posso dar.” Qual é a paz do Cristo? Sócrates afirmava: “A consciência tranqüila, a palavra reta e os atos corretos.”

Quando estamos em paz mentalmente, não temos vergonha do passado, não temos medo de acusações, podendo enfrentar as pessoas com tranqüilidade, o que demonstra nossa paz. Pensemos, então retamente, falemos de maneira correta e ajamos de forma saudável.

ER – Muitas são as pessoas que já têm consciência da necessidade de conquistar virtudes. Reconhecem as suas ações equivocadas e a necessidade de mudanças para conquistar a felicidade, mas não conseguem mudar. O que você diria a essas pessoas que estão no propósito de mudar e não conseguem?

Divaldo - Que insistam nos bons propósitos. Tudo são hábitos.Um grande pedagogo disse: “Educar é criar hábitos saudáveis.” Quem não tem bons, tem maus hábitos. Como estamos com hábitos arraigados, que chamamos viciosos ou negativos, para instalarmos hábitos novos, deveremos repeti-los até que se fixem. Se insistirmos nos bons hábitos, mesmo que caindo para levantar, como diz o Evangelho, se tentarmos sempre criamos uma nova adaptação, em breve, agiremos corretamente sem nos darmos conta.

Como é que educamos a criança a falar corretamente? Ela diz a palavra equivocada e corrigimo-la com a palavra certa. A criança sorri. Repete errado. Voltamos a dizer certo. Automaticamente, se lhe inscreve na mente o termo e, mais tarde, passa a falar corretamente. Nos atos morais assim também ocorre.

Allan Kardec, quando consultou os Espíritos, conforme a questão 919, de O Livro dos Espíritos, perguntou-lhes: Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir a atração do mal? E a resposta foi profunda: “Um sábio da Antiguidade já vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo”.

Fazer a viagem para dentro, para o íntimo, examinar os próprios limites, ser humilde perante si mesmo, autoperdoar-se, constituem o caminho do autoconhecimento. Todos temos o direito de errar, mas não o de permanecer no erro. Temos que nos levantar. Cair é um fenômeno natural. Todos caem. Ficar deitado, porém, é um fenômeno de acomodação.

Então, digamos aos corações amigos que pretendem mudanças, que essas somente se dão pela repetição, pelo exercício, sem desânimo, até o último instante.

 
     
 
 
 
. Últimas Notícias

 
 
 
Documento sem título