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Divaldo na África do Sul - Do mal tira o Senhor o bem


No percurso que conduzia ao local da tarefa diária programada, Divaldo mergulhava em recolhimento. E nós, levando o recato à conta de conúbio com a Espiritualidade e preparação da matéria a expor, nos relegávamos, também, a semelhante atitude.

 

Na temporada de 1985, a agenda reservara a noite para estender a Pretória as sementes do Consolador. Durante a viagem, o abençoado tribuno rompeu o silêncio e anunciou-nos que, ali, seria exígua a afluência do público. A surpreendente previsão pôs-nos de atalaia, conjecturando a razão da prevista falta de comparência. E teve o condão de aliviar o desapontamento que sobreviria.

 

Localizada a cerca de dez magras léguas de Joanesburgo, a urbe desempenha, oficialmente e de fato, na orgânica da África do Sul, a função de capital administrativa, ao lado das cidades do Cabo e Bloomfontein, as quais se desobrigam, na estrutura estatal, dos poderes legislativo e judiciário, respectivamente.

 

Centro comercial, industrial e acadêmico de renome, assumia-se, ao tempo, como o bastião do conservadorismo, em oposição às cidades de Joanesburgo, Cabo e Durban, cosmopolitas e liberais.

 

No salão da ACPP – uma associação recreativa e cultural da comunidade portuguesa -, o número de presenças da população local não excedia os dígitos. Contudo, a caravana fiel de confrades que acompanhava o orador, de terra em terra, surgiu, entusiástica:  compôs a desfalcada plateia e contaminou de júbilo a atmosfera local.

 

Concisa apresentação vincou as experiências existenciais do médium e orador, com relevo para a dedicação à infância desvalida e à difusão do Espiritismo.

 

Ao proferir as primeiras palavras do exórdio, Divaldo foi interrompido, de imediato, por um senhor da plateia que, num tom crispado pela emoção em desalinho, inicia uma série de imprecações, num tropel de palavras que sobe até o protesto veemente. Era o tipo de discurso absurdo, num registro fragmentado; um remoinho de acusações, atiradas em catadupa, por alguém aparentemente cego pela sanha da intolerância: que a ninguém cabia o direito de incutir doutrinas supersticiosas, que vinham abalar a estabilidade daquela pacata gente, feliz na sua fé...; que, sob a máscara da religião, se disfarçam outros interesses..., que se propagam como pragas. E quejandos...

 

O timing da intervenção convenceu-nos de que se tratava de planeado boicote.

 

Desperta pelo alarido, boa parte da clientela do bar contíguo, entretida a confraternizar, acorreu curiosa e sentou-se expectante no início e, depois, francamente deslumbrada a sorver a suculenta exposição. Assim, procedeu, também o indignado manifestante, que, perante a falta de qualquer atitude reativa à provocação, refreou os seus ímpetos e permaneceu, no seu lugar, abatido e resignado. O sussurro de fundo (não intencional) da fração dos que tinham permanecido no bar ecoou até o fim. Mas sem incidentes.

 

O conferencista manteve-se imperturbável, com a placidez que a serenidade de consciência confere, até que, após breves momentos de agitação retomou a matéria, deslizando suavemente pelas regiões da fenomenologia paranormal.

 

O mundo físico ocupa as primeiras perquirições do homem. A epopeia dos Descobrimentos, a partir do século XV, induz à contemplação do projeto da exploração interplanetária de que a chegada à Lua, em julho de 1969, representa êxito significativo. Num e noutro caso, mediante ensaios sucessivos, os navegantes consolidam experiências, superam recordes.

 

Entretanto, para além dos aspectos materiais, ampliam-se nossos horizontes que aguçam a curiosidade humana. Remonta já a 1930 a investigação, no âmbito da Parapsicologia, tendente a demonstrar que o homem é uma realidade parafísica: através das suas potencialidades, pode transmitir e receber ideias, sem se utilizar dos veículos tradicionais. Tinham sido encorajadores os resultados obtidos, com as cartas Zener, sobre o fenômeno da telepatia. Assim, às pesquisas de conhecimento material, reúnem-se as de caráter transcendente, que consentem certificar se o ser humano é, apenas, o seu corpo ou, também, uma realidade para além da matéria. Conforme opina o sábio Aurobindo, após a era da astronáutica, cumpre ao homem debruçar-se sobre a psiconáutica.

 

As missões experimentais, nesse campo de percepção extrassensorial, confiadas a Edgar Mitchell e ao submarino Nautilus, quando das viagens à Lua e à calota polar, respectivamente, redundam em resultados altamente positivos.

 

É extenso o acervo de argumentos comprovativos da reencarnação – outro fenômeno sondado pela ciência. Basta mencionar os fatos ocorridos com a parapsicóloga russa Bárbara Ivanova, referentes a reminiscências de duas reencarnações no Brasil e em Portugal, conservando a aptidão de se expressar em português. Ainda: os casos de gênios precoces, de crianças superdotadas de saber e de um potencial de lucubrações em termos de genialidade, entre os quais Albert Einstein e Norbert Wiener.

 

Contestando a tese reencarnacionista, há quem pretenda remeter a sua explicação para os domínios da genética ou da paranormalidade. No entanto, o estudo das árvores genealógicas proíbe essa conclusão, em seus ramos ascendentes e descendentes. E a mediunidade não é um fluxo contínuo: apresenta características de intermitência e transitoriedade.

 

A genialidade resulta da estratificação de um sem-número de experiências, através da repetição das reencarnações.

 

Aquele manancial de informações transmitidas num raciocínio seguro, vibrante de emoção, a um ritmo impressionante, soava tão estranho, tão insólito, que sacudia e arrebatava aquele povo. E a magia do verbo transportava, em gratificante excursão, a um belo mundo desconhecido, a paisagens mentais inacreditáveis.

 

Os fenômenos de desdobramento da personalidade constituem, ainda, fatos probatórios de que, para além do vaso físico, a criatura humana é uma realidade espiritual. Se pode apresentar-se fora do seu corpo é porque a sua personalidade não consiste, simplesmente, nesse corpo.

 

Além disso, fatos evidenciam a autonomia da alma, que não se submete a permanecer sob a escravidão das funções orgânicas; ao contrário, preza momentos de fuga, de liberdade ou desprendimento. Compreende-se, dentro desse raciocínio, que o Espírito possa, no termo da encarnação, desligar-se do envoltório carnal, para  continuar a viver fora dele.

 

Também, nesse capítulo, foram apontados paradigmas clássicos e recentes.

 

A verve de Divaldo, ao serviço de recursos dialéticos consistentes, confirmou a realidade do princípio espiritual, a partir do exame dos fatos e, daí, alargou o leque a conclusões de ordem filosófica e moral.

 

Quando terminou, a assembleia empolgada levantou-se, como que disparada por um automatismo, e vibrou numa estrondosa ovação.

 

A invulgar procura de literatura espírita, por parte do auditório, confirmou o apreço que lhe mereceu o evento.

 

Até o contestante da noite se reuniu à fila alinhada para autógrafos.

 

Divaldo, no regresso ao lar, pôde celebrar exuberante, a festa da lavoura realizada, em face do balanço que considerou surpreendente: Logramos arrancar aqueles corações à espuma do imediato, do quotidiano e matizá-los de novos interesses. A informação inesperada envolveu-os como que em jorros de luz e acordou-os para a esperança.

A conflituosidade alvejava impedir a realização da conferência espírita. Mas a Divindade, sempre sábia e justa, sabe como tirar o bem do mal e permitiu gorar o intentado fracasso, transformando-o em bênçãos para todos. Tudo se virou do avesso.

 

Visou-se a travar o evento, pela consciência de que um auditório diminuto não justificaria o esforço? O espírita jamais se recusa ao labor, seja farta a assembleia, seja ela ínfima; quer o enalteçam os louvores, quer o atinjam os vitupérios.

 

Se a manipulação forjava afastar a presença de eventual assistência local, operou o contrário: a alterada voz da indignação convocou um apreciável número de indivíduos que se distraía no bar. Desembocaram no salão, com a mente mais aguçada para avaliarem a razão ou a sem-razão da turbulência verbal.

 

Até o protagonista do bulício saiu beneficiado: ouviu até o fim e abordou-me, numa iniciativa de conciliação, desculpando-se e aplaudindo a solidez dos argumentos.

 

Pretendeu-se calar uma voz que pudesse ameaçar as bases das crenças tradicionais? Diligenciamos não melindrar ninguém. Selecionamos um tema adequado às circunstâncias com firme respaldo em fatos da ciência parapsicológica. Os dados científicos confluíram no estuário natural das suas conclusões filosófico-morais, segundo a abençoada Doutrina do consolador.

 

O episódio ocorrido, longe de causar constrangimento, anima-nos a prosseguir. Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos  são fecundos em histórias semelhantes. Os ardis traiçoeiramente montados aos paladinos da Boa Nova poderão abrandar momentaneamente o ritmo da ação, mas, de forma alguma, sustar a abnegação dos trabalhadores, bem como a metamorfose, no imo dos corações e no cerne da sociedade. De acordo com a questão 781 de O Livro dos Espíritos, o homem poderá atrasar a marcha do progresso; jamais detê-la indefinidamente. Cumpre-nos não inverter os valores - a substância pelo acidente, o interno pela exterioridade.

 

E o discípulo não é mais que o Mestre. A nós basta-nos semear; o Pai dará incremento.

José P. Sendão.

Fonte: Revista Espírita, janeiro/fevereiro de 2011.

Em 18.03.2011.

 
     
 
 
 
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