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Divaldo em Bophuthatswana – Estar no mundo sem ser do mundo


Manter a assistência às comunidades anteriormente evangelizadas e prosseguir fundando novos núcleos de fé, assim equacionou Paulo de Tarso a sua estratégia apostólica, cuja metodologia, também, Divaldo adotou em seu trabalho.

O desejo de levar a Boa Nova a “todas as gentes” conduziu o ilustre tribuno a atravessar a África do Sul e desbravar o terreno dos corações, mesmo nos países vizinhos – soberanos ou semi-independentes, esparzindo as sementes da Doutrina Espírita.

Na manhã de 18 de março de 1985, viajamos, desde a cidade sul-africana de Vereeniging até Bophuthatswana, para, numa atitude de pioneirismo, realizarmos aí, ao ar livre, num recanto tranquilo, um culto do Evangelho: seria como que abrir uma clareira de luz, nesse território. Mas a canícula incendiava o ambiente, sem que simples fronde de árvore amiga nos acolhesse para uma pausa...

Assim, prosseguimos, até que os cartazes publicitários e informativos surgiam insistentes, como flashes, repetindo: Sun City.

Anotando o fato, Divaldo sugeriu:

Pela frequência dos sinais, o resort não deve estar longe... Viajemos até lá. Aí encontraremos espaço cômodo para o labor programado.

Sun City era, na vasta oferta hoteleira do país, um resort de prazeres e jogos, ilusões e fugas psicológicas, onde os sequiosos de aventuras dispendem fortunas incalculáveis, na busca de coisa nenhuma... Célebre, ainda, pela promoção do show business e de campeonatos internacionais de golfe e boxe e pelo licenciamento do jogo de casino, na época, interdito na África do Sul, a proximidade das duas grandes cidades de Joanesburgo e Pretória garantiria negócio sem riscos para os seus investidores.

Filho bastardo do sistema segregacionista, o país gozava, no entanto, do estatuto de independente, desde 1977. Distribuído por sete enclaves, agrupava os faltantes sul-africanos de Setswana. Independência singular certamente! Mundo de contrastes!...

Seria reincorporado, na África do Sul, em 1994.

O “apartheid”, montado no estigma rácico, negava à população negra direitos sociais, econômicos e políticos. O desumano sistema apresentava-se com o rosto caricatural de uma filosofia do desenvolvimento separado... A criação dos bantustans (homelands) retribalizou as etnias, atirando-as para os territórios de mais exíguos recursos, ao nível do solo e do subsolo.

*   *   *

Numa esplanada contígua ao casino, num canto discreto, absortos ao difuso som eletrônico das máquinas de jogo, preparamo-nos, interiormente, para esse momento tão solene e tão simples.

Depois de sentida prece inicial, foi aberto o “Evangelho segundo o Espiritismo”, no capítulo XVIII, referente ao texto de Mateus (7, 13-14), sobre a dicotomia entre a porta estreita e a porta larga. Fôramos brindados com uma página de inesperada pertinência e candente atualidade.

Num lugar como aquele, postáramo-nos diante da porta larga, transpondo a porta estreita, sem ímpetos de julgar, de condenar o comportamento alheio.

Naquela casa dedicada ao ócio, ao divertimento, ao prazer, a atitude de escolher a porta estreita, sem amargura, sem frustrações, constituía num verdadeiro desafio ao ânimo de cada um. Em pleno torvelinho da porta larga, que nos franquearia meras concessões transitórias, escolhêramos, no entanto, a aquisição demorada e definitiva, que nos oferecia a paz inefável. Eis a porta estreita, a opção coerente em nossas vidas!

Poderemos estar no mundo sem ser do mundo (sem viver “mundanamente”), como discípulos da Nova Era. Ser é pertencer, impregnar-se da realidade na condição de permanência; ao contrário, o estar conota-se com uma situação transitória, com a efemeridade da vicissitude. Jesus não suplicara ao Pai que nos suprimisse do mundo, mas nos libertasse do mal.

Rejeitamos um mundo de enganos, evanescente, passageiro, perfilhando um mundo novo, onde Deus é tudo em todos. Diligenciamos apartar-nos do mundo dos gozadores e depositamos as nossas expectativas na construção de um mundo melhor, para nós e para os outros. Conhecemos a advertência paulina: “Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens.”

Sabedoria e Amor, a Divindade permite-nos enxergar tudo, abarcar diferentes alternativas, para elegermos a melhor...

Ao ser planeada a reencarnação, o arroubo do momento induz o Espírito a heroicas promessas de tormentos e provações. Mas o Senhor quer misericórdia e não sacrifício. Assim, o programa será desenhado de acordo, situando o reencarnante num espaço sócio-familiar normal, concitando-o, todavia, a maior dose de emulação e amor fraterno.

O grão de semente só atinge a germinação se fruir de abrigo, no ventre da terra. Assim, também, a criatura adquire real valor, mesmo que assediada pelo fragor da dificuldade ou acossada pelo canto de sereia da tentação; se orienta a bússola da sua vida na direção do norte seguro e atua com elevação moral e dignidade espiritual.

Dentro destas coordenadas, fizeram-se breves comentários em inglês, francês e português por circunstantes, um dos quais expressamente vindo de Moçambique.

Seguidamente, o médium e orador baiano usa da palavra, em profunda análise ao texto, com adequadas referências à singularidade do momento. Como que por osmose, as suas experiências existenciais transfundem-se para os seus discursos: e a mensagem, dessa forma, flui mais rica de conteúdo e realismo.

Assim se exprimiu:

- Estamos no mundo sem pertencer ao mundo, como agora, nos encontramos, nesta casa de jogo, sem estar jogando. Jesus não nos recomenda que fujamos do mundo.Que mérito premia aquele que, refugiado na ilha deserta, conserva uma conduta exterior irreprochável, por não dispor com que se extraviar?! O Senhor não impõe a vida eremítica de solidão: só a existência de proximidade faculta ensejos de relacionamento frutuoso, na perspectiva da solidariedade. Incumbe a todo o verdadeiro Espírita o imperativo de ser agente de fecundação – luz que irradia, sal que preserva..

A página do Evangelho de Levi tem o condão de apelar à nossa alegria interior, decorrente da consciência tranquila. Constituirá ela antídoto seguro contra a perturbante “zoada” que nos envolve e atordoa; aliena a muitos e intenta submergir a todos. Aquele que se afastou de si mesmo, se perdeu, só se redime depois do reencontro. Se lhe falece a coragem de se contemplar no espelho interior, se tem medo de se autodescobrir, então, joga, bebe, consome drogas, encharca-se de álcool, faz aventuras para se ocultar. Mas, como a vida é uma marcha inexorável, surpreende o “fujão” que, não atinando lugar para se evadir, faz a viagem de volta ao remorso, ao arrependimento, ao sacrifício que a própria pessoa se autoinflige.

E a porta estreita apresenta-se de grande beleza! A atitude de abnegação que decidimos, ao empreender esta viagem, tem um sabor especial. Viajamos quatro longas horas, em tertúlia feliz. Não deixamos que o bom humor se apagasse do nosso rosto: rimos, trocamos ideias, enriquecemos a compreensão das matérias que nos irmanam, preparamos esses momentos com a boa disposição.

E reunimo-nos aqui, nesta terra cansada e sofrida, onde plantaram esta luxuosa cadeia de equipamentos turísticos vocacionados para oferecer prazer a muitos que, pelos excessos, estão saturados e já se sentem tocados pelo tédio. Quem joga é porque tem dinheiro e persegue dinheiro, para jogar de novo, para ganhar dinheiro: joga e ganha; ganha e torna a jogar, num círculo vicioso, numa rotina sem-fim, na ressaca interminável do vício...

Viemos para a sementeira da Doutrina, esperando que o Senhor dê o devido incremento. A. porta estreita é a linha reta, a meta próxima ao nosso alcance.

Cremos que a parábola evangélica das duas portas foi uma resposta do Mundo Espiritual.Ontem, bem nos recordamos que, visitando a cidade de Nigel, pela primeira vez, coube-nos a oportuna parábola do semeador: a terra boa em oposição ao solo ingrato ou indiferente, pedregoso ou eivado de espinhos. A dicotomia presente nos textos é um feliz apelo dos Bons Espíritos, para que saibamos viver no mundo, utilizar o mundo sem a ele nos escravizarmos.

*   *   *

Após estas comovedoras palavras, cujo excerto citamos, Divaldo convidou-nos à meditação, com vibrações em favor da nação pungida de aflições, e daquele lugar, onde nos congregáramos, rico de corações pobres e pobre de corações pacificados; e inspirados pelo apostolado de Paulo e pela têmpera férrea de Simão que, indo a Roma, aos redutos do vício e da “jogatina”, para pregar, num ambiente hostil, a insólita Doutrina do Cristo, também nós, naquele momento, nos propusemos implantar o padrão histórico do Consolador naquela comunidade.

Por fim, Divaldo, visivelmente emocionado, encerrou o encontro com uma sentida prece de gratidão, pela ventura daqueles momentos.

José  P. Sendão

Fonte: Revista Presença Espírita, de março/abril 2010.

Em 17.05.2010.

 
     
 
 
 
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